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Presidentes da Câmara e do Senado criticam propostas do governo

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Presidentes da Câmara e do Senado criticam propostas do governo

Bolsonaro terá de nos aturar por dois anos e vice-versa, dizem Maia e Alcolumbre

​Presidentes da Câmara e do Senado criticam propostas do governo – O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), receberam a Folha na quinta-feira (6) para uma entrevista inédita.

Ela seria feita ao mesmo tempo, e os dois responderiam às mesmas perguntas.

Na conversa, eles se posicionaram contra o decreto que flexibiliza o porte de armas, criticaram propostas do presidente para alterar as leis de trânsito, se disseram contrários à política ambiental do governo e disseram que o projeto anticrime do ministro Sergio Moro, da Justiça, não é prioridade nem para Bolsonaro.

Ironizaram ainda os vídeos divulgados pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, em que ele aparece bailando ou tocando gaita.

“Se tiver um musical, ele vai ser o principal ator, não vai?”, disse Maia, arrancando risos de Alcolumbre.

Afirmando desconhecer qualquer pauta importante do governo para superar a crise econômica além da reforma da Previdência —que apoiam com entusiasmo —, os dois estão elaborando uma agenda para tocar no Parlamento.

Ambos avaliam que o governo de Jair Bolsonaro, mesmo sem base parlamentar sólida, não cai. Mas terá problemas para aprovar a agenda que propõe ao país.

“Uma coisa é o Parlamento garantir as condições mínimas de governabilidade”, diz Maia, citando, entre outras coisas, a aprovação da reforma da Previdência. “A partir daí, qual vai ser o embate?”​

Alcolumbre afirma que, apesar das divergências, Bolsonaro “vai ter que me aturar dois anos na presidência do Senado”. “Eu vou ter que aturar ele dois anos. Ele vai ter que aturar o Rodrigo e o Rodrigo vai ter que aturar ele. Eu quero que a gente consiga conviver pensando no Brasil.”

Os dois fizeram questão de mostrar que estão alinhados. Maia recebeu a reportagem na residência oficial, em Brasília. Caminhou pelo jardim até a casa do vizinho Davi, passando por uma porta que eles mandaram abrir e que liga as duas residências. 

“É a porta da harmonia”, disse o presidente do Senado antes de a entrevista começar.

O presidente Jair Bolsonaro aparentemente não fará acordo para ter uma base sólida no Congresso. O que pode acontecer? O país viverá uma crise permanente? Ele cede? O governo cai? 
Davi Alcolumbre - Não creio nisso, não espero isso e não quero isso. O presidente da República foi eleito por milhões de brasileiros e o mandato é de quatro anos. Ele tem que cumprir o mandato. E precisa fazer política.

A história mostra que presidentes sem base caem. 
Rodrigo Maia – Presidentes que não têm base e que perdem apoio na sociedade, principalmente por uma crise profunda na economia [caem]. Mas nenhum presidente que tem lastro social ou político na sociedade cai. Lula teve problemas [em 2005, no escândalo do mensalão] e não caiu.

Lula tinha apoio parlamentar. 
RM – Em algum momento, auxiliares do presidente Lula tentaram encaminhar um acordo com medo que ele caísse. Mas ele tinha lastro. E a economia se recuperava porque ele fez o primeiro governo com uma equipe econômica que adotou uma linha de restrição fiscal grande e deu espaço para ele superar a crise.
Então, eu concordo com o presidente Davi. Não é isso o que a gente quer [que Bolsonaro caia].
O cenário que a gente está olhando é o das reformas. Elas vão ajudar o governo a recuperar muito do capital político que perdeu em seus primeiros cinco meses, pela desorganização política e pela crise econômica.
DA - Qual é a nossa expectativa? A saída de qualquer modelo de gestão de um país como o Brasil tem que se dar na política.
Eu tenho sido cobrado muito pelos senadores [para adotar] uma posição mais firme em relação ao Executivo.
Mas a maturidade politica de deputados e senadores, mesmo não entendendo ainda esse modelo que o presidente quer implantar, tem sido grande. A política já deu vários sinais de que quer ajudar.
Com todas as dificuldades, estamos conseguindo superar pautas importantes para o Brasil mesmo sem essa relação política [com Bolsonaro] ter sido estabelecida.
Porque não foi. E não tenho ainda uma perspectiva clara, no curto prazo, de que isso vai ocorrer. O presidente tem deixado clara a posição dele de quebrar o modelo estabelecido nos últimos 30 anos.
Ele pode ter quebrado esse modelo na eleição. Mas não sei como um governo consegue se sustentar se não tiver apoio da política. Ele tem apoio social. Teve voto. Mas precisa ter apoio do parlamento para as coisas darem certo.

O país viverá em crise permanente então, se ele não cair? 
RM – Cair, não cai. Mas uma coisa é o Parlamento garantir as condições mínimas de governabilidade: aprovar a reforma da Previdência, resolver a questão do leilão da cessão onerosa [de petróleo] para fechar o Orçamento, aprovar o projeto da regra de ouro.
A partir daí, qual vai ser o embate? O governo vai ter força para implementar a agenda que propôs ao Brasil? Vai ter maioria para isso?
Porque o governo é legítimo, mas o Parlamento também é. Todos foram eleitos pelo voto popular.
Certamente o presidente tem uma agenda que a gente não conhece ainda. Para implementar essa agenda, ele vai precisar de uma base. 

E vocês acham que ele cede? 
RM – É uma decisão dele.
DA – Mas a gente não pode esperar essa decisão dele.
E já demos sinais. O presidente Rodrigo tem feito inúmeras reuniões debatendo questões especialmente da microeconomia para a gente proporcionar emprego para as pessoas.
Estamos falando da Previdência. Mas era para a gente estar em outro debate: o que fazer, ao lado das reformas, para as pessoas que estão passando fome no Brasil. Eu quero ser apresentado a alguma proposta em relação a isso.

É o que o presidente Maia chama de um deserto de ideias? 
DA  Precisa ter uma pauta. Se ainda não há, estamos trabalhando, no Senado e na Câmara. Vamos fazer a nossa agenda.
A minha relação com o Rodrigo é a de um amigo. Não existe vaidade. Estamos compactuando, conversando. Até porque, se não for assim, as coisas não vão andar. A gente já viu a toada que vai ser do outro lado da rua [no Palácio do Planalto, onde o presidente Bolsonaro despacha]. Presidentes da Câmara e do Senado criticam propostas do governo

Que toada? 
DA - Sem aproximação da política, sem entender a reforma [da Previdência] como condição para equilibrar [as contas].
Alguém está falando do Minha Casa Minha Vida? Esqueceram. Milhões de empregos foram gerados. Em dez anos, foram construídas 5,5 milhões de habitações que abrigam 30 milhões —mais de 10% da população brasileira.
Precisa liberar recurso. Eu vou cobrar uma posição firme do governo em relação ao Minha Casa Minha Vida. Não é possível ficar assim.

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Os senhores confiam em Bolsonaro como interlocutor? 
RM – Não é uma questão de escolha. É obrigação manter, de nossa parte, o bom diálogo com ele. 
Nas últimas semanas o presidente passou a ter um canal melhor com o Parlamento.
Ele é o presidente da República. O Davi foi eleito de forma legítima por seus pares e eu pelos meus. Cada um tem que ter respeito pelo outro. Mesmo que discorde da forma como é feito o diálogo. Mas está dado.
DA – Eu não preciso gostar do Bolsonaro nem ele gostar de mim. Mas ele vai ter que me aturar dois anos na presidência do Senado. Eu vou ter que aturar ele dois anos. Ele vai ter que aturar o Rodrigo e o Rodrigo vai ter que aturar ele.
Eu quero que a gente consiga conviver esses dois anos pensando no Brasil. A minha fé é muito grande. Presidentes da Câmara e do Senado criticam propostas do governo

O que o Congresso quer? Cargo, verba? 
RM – O presidente até agora apresentou, do ponto de vista macro, uma só proposta: a da Previdência. O que o Parlamento de fato quer saber é qual é o projeto do governo para o país para os próximos quatro anos. Para que possa se sentir parte e colaborar.
Agora, governar juntos também não é crime. Em todos os países do mundo democrático isso ocorre. Não vejo nenhum problema. 
Não podemos achar que todas as indicações são de baixa qualidade. Os ministros Paulo Guedes (Economia) e Sergio Moro (Justiça) indicaram dois quadros para o Cade. É criminoso? Ou, como o Davi me diz, eles usaram o banco de talentos do governo para fazer a indicação?
DA – Porque disseram [o governo] que, para partido ou para deputado e senador indicarem era preciso fazer cadastro para um tal banco de talentos. Eu disse “o presidente indicou 22 talentos dele [para os cargos de ministros]. Ele tem os talentos dele e nós temos os nossos”. E os nossos talentos podem ajudar o Brasil.
RM  Se o presidente tem uma agenda de redução da pobreza, do desemprego, da burocracia, e bota no papel de forma concreta, os partidos podem dizer “apoiamos essa agenda”. Não necessariamente participando do governo.
O problema é que nós estamos andando de trás para a frente, buscando voto para aprovar uma reforma que não é popular. Falar que a reforma da Previdência é popular na base da sociedade, no Norte e no Nordeste, é conhecer pouco o Brasil.

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